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Cândido Torquato Portinari (Brodósqui SP 1903 - Rio de Janeiro RJ 1962) inicia-se na pintura em meados da década de 1910, auxiliando na decoração da Igreja Matriz de Brodósqui. Em 1918 muda-se para o Rio de Janeiro e, no ano seguinte, ingressa no Liceu de Artes e Ofícios e na Escola Nacional de Belas Artes, na qual cursa desenho figurativo com Lucílio de Albuquerque e pintura com Rodolfo Amoedo, Baptista da Costa e Rodolfo Chambelland . Em 1928, viaja para a Europa com o prêmio de viagem ao estrangeiro, e percorre vários países durante dois anos. Em 1935, recebe prêmio do Carnegie Institute de Pittsburgh pela pintura Café, tornando-se o primeiro modernista brasileiro premiado no exterior. No mesmo ano, é convidado a lecionar pintura mural e de cavalete no Instituto de Arte da Universidade do Distrito Federal, quando tem como alunos Roberto Burle Marx e Edith Behring , entre outros. Em 1936 realiza seu primeiro mural, executado para o Monumento Rodoviário da Estrada Rio-São Paulo. Em seguida, é convidado pelo ministro Gustavo Capanema para pintar uma série de afrescos para o novo prédio do Ministério da Educação, projetado por Lucio Costa. Realiza outros painéis para diferentes instituições, no Brasil e no exterior. Em 1940, a Universidade de Chicago publica o primeiro livro a seu respeito, Portinari: His Life and Art , com introdução de Rockwell Kent . Filiado ao Partido Comunista Brasileiro, candidata-se a deputado e senador, mas não consegue se eleger. Em 1946, recebe a Legião de Honra do governo francês. Em 1956, com a inauguração dos painéis Guerra e Paz na sede da ONU, em Nova York, recebe o prêmio Guggenheim . Realiza ilustrações para vários livros, como Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Alienista, de Machado de Assis, entre outros. Em 1958 inicia um livro de poemas editado por José Olympio em 1964, com textos introdutórios de Antonio Callado e Manuel Bandeira. Em 1979, seu filho João Candido Portinari implanta o Projeto Portinari, que reúne um vasto acervo documental sobre a obra, a vida e a época do artista, no campus da PUC/Rio de Janeiro.
NASCIMENTO/MORTE
1903 - Brodósqui SP - 29 de dezembro
1962 - Rio de Janeiro RJ - 6 de fevereiro - Vitimado pelo envenenamento crônico provocado pelo contato com as tintas a óleo
LOCAIS DE VIDA
1918/1962 - Rio de Janeiro RJ
VIDA FAMILIAR
1939 - Rio de Janeiro RJ - Nasce seu único filho, João Candido Portinari, coordenador do Projeto Portinari
FORMAÇÃO
1910c. - Brodósqui SP - Realiza os primeiros estudos numa escola rural da cidade
1912c. - Brodósqui SP - Inicia-se na pintura, auxiliando na decoração da igreja matriz da cidade
1919 - Rio de Janeiro RJ - Estuda no Liceu de Artes e Ofícios
1919/1928 - Rio de Janeiro RJ - Estuda na Enba , onde cursa desenho figurado com Lucílio de Albuquerque e pintura com Rodolfo Amoedo e Baptista da Costa. Nos últimos anos é aluno de Rodolfo Chambelland
VIAGENS
1928/1930 - Europa - Com o prêmio de viagem ao estrangeiro, ganho na Exposição Geral de Belas Artes, parte para Paris. Visita a Inglaterra, a Itália e a Espanha, percorrendo museus e galerias. Conhece os pintores Van Dongene e Othon Friesz
1939/1941 - Estados Unidos
1946 - Paris (França)
1947/1948 - Montevidéu (Uruguai) - Com a cassação do Partido Comunista, ao qual é filiado, viaja para fugir da perseguição aos comunistas
1950 - Veneza e Chiampo (Itália)
1956 - Israel - Viaja a convite da Associação dos Museus e do Centro Cultural Brasil-Israel. Desenha paisagens e pessoas das regiões que percorre, reunidos no álbum Israel , publicado pela Editora Abrahams e pelo industrial Eugênio Luraghi
ATIVIDADES EM ARTES VISUAIS
1936 - Rio de Janeiro RJ - Executa o primeiro mural para o Monumento Rodoviário, na estrada Rio-São Paulo
1936/1938 - Rio de Janeiro RJ - Ocupa a cadeira de pintura mural e de cavalete no Instituto de Arte da Universidade do Distrito Federal, organizada por Anísio Teixeira. Entre seus alunos, destacam-se Roberto Burle Marx e Edith Behring
1938 - Rio de Janeiro RJ - É convidado pelo ministro Gustavo Capanema para pintar uma série de afrescos para o novo prédio do Ministério da Educação, projetado por Lucio Costa
1939 - Rio de Janeiro RJ - Executa três painéis para o pavilhão brasileiro na Feira Mundial de Nova York
1939 - São Paulo SP - Integra a Família Artística Paulista
1940/1959 - Ilustra os livros A Mulher Ausente , de Adalgisa Nery (1940); Maria Rosa, de Vera Kelsey (1942); Memórias Póstumas de Brás Cubas e O Alienista , de Machado de Assis (1943 e 1948); A Selva , de Ferreira de Castro (1955); Menino de Engenho , de José Lins do Rego (1959); O Poder e a Glória , de Graham Greene (1959); Terre Promisse e Rose de Septembre , de Andre Maurois , e Antologia Poética , de Nicolas Guillén (1961), entre outros
1941 - Washington D.C. (Estados Unidos) - Executa afrescos para a Fundação Hispânica da Biblioteca do Congresso
1942/1943 - São Paulo SP - Pinta a Série Bíblica para a Rádio Tupi
1943 - Rio de Janeiro RJ - Executa novos murais para o Ministério da Educação e desenha os azulejos para a decoração do exterior do edifício
1944 - Rio de Janeiro RJ - Cria quarenta figurinos e cinco telões para o bailado Iara , da companhia Original Ballet Russe , cuja encenação é proibida pelo DIP
1944 - Belo Horizonte MG - Realiza mural e azulejos sobre a vida de São Francisco para a Capela da Pampulha. No ano seguinte, realiza Via Sacra para a mesma igreja
1948 - Montevidéu (Uruguai) - Pinta, em têmpera, o painel A Primeira Missa no Brasil , para o Banco Boavista do Rio de Janeiro
1949 - Pinta o mural Tiradentes
1952/1956 - Executa Guerra e Paz , para a sede da ONU em Nova York
1953 - Batatais SP - Pinta uma série de telas para a igreja matriz da cidade
1954 - Rio de Janeiro RJ - Realiza , para o Banco Português do Brasil, o painel Descobrimento do Brasil
1954 - Executa painel dedicado aos Fundadores do Estado de São Paulo para o jornal O Estado de S. Paulo
1959 - Rio de Janeiro RJ - Pinta o mural Inconfidência Mineira para o Banco Hipotecário e Agrícola de Minas Gerais S/A
1960 - São Paulo SP - Executa painéis para o Banco de Boston
ATIVIDADES OUTRAS
1945 e 1947 - São Paulo SP - Candidata-se a deputado e a senador pelo Partido Comunista Brasileiro, mas não consegue se eleger
1957 - Rio de Janeiro RJ - Começa a escrever o livro de memórias Retalhos de Minha Vida de Infância
1958 - Rio de Janeiro RJ - Escreve um livro de poemas editado por José Olympio em 1964, com textos introdutórios de Antonio Callado e Manuel Bandeira
ESCOLAS/MOVIMENTOS
Figurativo: Academismo, Expressionismo, Realismo Social, Cubismo, Cezannismo , Figuração Lírica, Figuração Expressiva e Figuração Construtiva
GÊNEROS/TENDÊNCIAS
Pintura de Gênero, Natureza-Morta, Flores, Retrato, Auto-Retrato, Paisagem, Marinha, Pintura Sacra, Pintura Histórica, Figura, Composição Figurativa, Pintura Alegórica
MARCOS
1931 - Salão Revolucionário
1935 - Grupo Portinari
1937 - Salão de Maio
1937 - Família Artística Paulista - FAP
1954 - Salão Preto e Branco
TEXTOS CRÍTICOS
"A partir de Café , o humano, compreendido em termos sociais e históricos, torna-se a tônica da arte de Portinari, voltada para a captação da realidade natural e psicológica, para uma expressividade, ora serena e grave, ora desesperada e excessiva. A nova problemática encaminha-o, a exemplo dos mexicanos, para o muralismo, em que procura magnificar sua busca duma imagística nacional, alicerçada no trabalho e em suas raízes rurais. (...) Após 1947, a arte de Portinari conhece uma nova modificação. São postas de lado, ao mesmo tempo, a dramaticidade expressiva e a preocupação social. (...) Os novos temas de Portinari são sobretudo históricos - A Primeira Missa no Brasil , Tiradentes (...). A viagem a Israel parece conferir uma nova dimensão à arte de Portinari. (...) Ao mesmo tempo em que se deixa seduzir pela cor, Portinari começa a fazer experiências com a abstração geométrica, influenciado pelo cubismo cristalino do francês Jacques Villon , pintor que admirava há algum tempo. (...) A busca dum rigor geométrico aliado a uma paleta clara e sonora não mascara, entretanto, o esvaziamento que a pintura de Portinari vem sofrendo nos últimos anos de sua atividade artística. "
Annateresa Fabris
FABRIS, Annateresa . Portinari, pintor social .1977.230 f. Dissertação (Mestrado em Artes Plásticas) - Escola de Comunicações e Artes, Universidade de São Paulo, São Paulo.
"(...) Quando começou a abordar esta temática (retirantes) não havia ainda preocupações sociais marcantes na obra de Portinari. Aparecem apenas famílias acampadas nos arredores de seu povoado. (...) Também não tinham a designação de retirantes. Algumas dessas composições possuem inegável beleza plástica (...) Começaram a ser produzidos a partir de 1935. (...) Somente mais tarde a série dos retirantes assumiria uma feição acentuadamente social na carreira do mestre brasileiro. Não apenas em virtude da Grande Guerra iniciada em 1939, como em face do apelo aos recursos de expressão que caracterizariam em seguida a parte mais notável de sua obra. Esta fase social culmina com a grande tela Retirantes e com a composição O Morto na Rede , pertencentes ao acervo do Masp. (...) Os retirantes pintados nos últimos anos da vida do artista já não eram apenas quadros sociais. Tornaram-se igualmente soluções de problemas formais. (...) De qualquer modo, em suas três fases distintas, Os Retirantes de Portinari permanecerão como alguns dos trabalhos mais significativos e pungentes da arte brasileira de todos os tempos. "
Antônio Bento
BENTO, Antonio. Portinari. Prefácio Jayme de Barros; apresentação Afonso Arinos de Mello Franco. Rio de Janeiro: Leo Christiano, 1980. 392 p., il . color .
"(...) Não se pode dizer, no entanto, que tenha havido uma estética oficial, se compreendermos por tal um estilo que o Poder adota como seu e o impõe. Não se pode, portanto, afirmar que Portinari tenha sido um pintor oficial (...). Houve foi uma recuperação por parte do Poder da tática adotada pelo movimento modernista, onde o governo utilizará o apoio a Portinari como exemplo do seu mecenato. Mas se não houve uma arte oficial, não significa que o estilo de Portinari não pudesse também ser assimilado pela ideologia do Poder. No que se refere ao aspecto temático, se a orientação de Portinari não correspondia a um patriotismo evidente e épico, como talvez fosse o desejo do governo, não significa que não pudesse ser recuperado. A dignidade que o artista confere ao trabalhador, o destaque que dá ao personagem popular, enfim, todos aqueles assuntos que ele abordou não podiam ser negados por um poder para quem a questão social (mesmo que dentro de uma ótica populista) constituía uma das bases de sua política. Mas se a pintura de Portinari pôde ser recuperada, foi principalmente porque a sua concepção formal era conciliável com a estratificação simbólica de uma ideologia conservadora. (...) "
Carlos Zilio
ZILIO, Carlos. A querela do Brasil :a questão da identidade da arte brasileira: a obra de Tarsila, Di Cavalcanti e Portinari/1922 -1945. 2. ed. Rio de Janeiro: Relume-Dumará , 1997. 139 p., il . color .
"Candido Portinari começa a ganhar ressonância na cena artística carioca entre 1928 e 1931, período que sucede a eclosão mais violenta do modernismo no Brasil, período que começa a perceber as vanguardas históricas como parte do legado da história da arte ocidental, e não mais como paradigma absoluto para os novos artistas. Iniciada após o refluxo das vanguardas, a obra de Portinari dialogou com inúmeras tradições visuais da arte européia, desde aquelas do Primeiro Renascimento, até a obra de seu contemporâneo Pablo Picasso. Através de sua espantosa capacidade em absorver as mais diversas maneiras, Portinari trafegou com indisfarçável facilidade por esquemas formais criados por Botticelli, Picasso, Pisanello , De Chirico , Holbein , Paul Delvaux ... Portinari produziu suas obras experimentando procedimentos pictóricos de artistas antigos e contemporâneos, sempre acrescentando a cada um desses 'experimentos' soluções de forte cunho pessoal, que ainda aguardam um entendimento mais profundo.
(...)
De volta ao Brasil, já sem os traços acadêmicos, mas também sem o radicalismo dos artistas vanguardistas, Portinari acabou sendo eleito pelos protagonistas do movimento modernista local (Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e outros) como principal motor para a constituição de uma arte moderna no Brasil: uma arte que tentava distanciar-se das convenções da Academia, mas atenta para não se 'perder' na abstração ou em outros 'excessos' vanguardistas. "
Tadeu Chiarelli
CHIARELLI, Tadeu. Sobre os retratos de Candido Portinari. In: ______. Arte internacional brasileira. São Paulo: Lemos, 1999. p. 175-181.
"O mundo de Portinari: à medida que, atraídos por ele, nós nos movemos nele através do pensamento, cheios de assombro - de medo talvez - mas aceitando seus elementos macabros com a mesma naturalidade com que nosso inconsciente acolhe os mais fantásticos sonhos que nos perturbam na hora do sono, vamos chegando, aos poucos, à percepção de que não estamos diante de um mundo apenas imaginário e sim diante da recriação intensificada e fantástica do mundo que Portinari conhece, o de sua terra natal, o Brasil. Disto seus quadros são a prova. Neles vemos a paisagem, pisamos o chão; vemos seus trabalhadores e sua pobreza - não descritos com aflição, descritos. E descritos com amor. Não amor pela miséria e o trabalho incessante e sim amor por mulher, homem, criança - que, ricos ou pobres, são para ele objeto de amor. Ele os pinta com plena aceitação.'Bem-aventurados os humildes' é o que parece dizer, do fundo do coração. E sem as condições em que vivem em sua terra brasileira nada tem, pelo que vemos, de invejável herança, a vida que levam, pela bondade que deles se exala, vale a pena ser vivida. Trabalham; casam-se e sustentam família; seus filhos brincam. E não existem, no tesouro das artes, quadros mais eloqüentes do que esses, que pintam a felicidade de crianças que brincam. "
Rockwell Kent
CALLADO, Antonio. Candido Portinari. In: CANDIDO Portinari. Texto Antonio Callado. São Paulo: Finambrás , 1997. P. 11-19.
OUTROS TEXTOS
A MÃO
Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
e nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos .
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação porque tudo tem (nova) cor.
Tudo existe porque foi pintado à feição de laranja mágica
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da terra domícilio do homem.
Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.
Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Candido Portinari.
Carlos Drummond de Andrade
ANDRADE, Carlos Drummond de. A Mão. In: ______. Carlos Drummond de Andrade: poesia e prosa. Introdução Afrânio Coutinho. 8. ed. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1992. p. 323-324.
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